06/11/10

A administração de políticas sociais

O plano de estabilidade e crescimento conduziu à revisão dos apoios e subsídios sociais, obrigando à prova de recursos de cada agregado familiar, de modo a combater a fraude e o pagamento de prestações indevidamente. Porém, esse controlo é totalmente desadequado, uma vez que a prova de recursos só se faz através da internet (fora do alcançe dos recursos de grande parte dos utentes), e não traduz de forma realista os rendimentos de cada agregado - estimulando a conjuntura actual o recurso a biscates e serviços esporádicos, não declarados. A matrícula escolar não significa necessariamente que as crianças estejam a estudar, bem como os carimbos de procura de emprego - muitos vão ao gabinete, mas não pesquisam todos os instrumentos disponiveis, inventam mil e uma razões para excluir uma oferta ou antecipar a sua não selecção... Por outro lado, os rendimentos não fazem jus aos gastos de cada agregado, sendo estes variáveis e, portanto, devendo ser analisados individualmente.
É uma pena que não se valorizem os profissionais do terreno, que lidam diariamente com os utentes e conhecem as suas vidas. Quem melhor do que eles para analisar as situações? Por esta razão, julgo pertinente distinguir dois tipos de políticas que actualmente se misturam e se tratam de forma semelhante: as referentes à vida activa ou relação com o trabalho, traduzindo essencialmente o direito a prestações compensatórias pela impossibilidade de auferir rendimentos através do trabalho; e as políticas de assistência, que traduzem direitos básicos e nomeadamente questões de emergência social. Ora, no meu entender, as primeiras podiam deixar-se a cargo dos órgãos políticos e sistemas burocratizados; as outras deveriam ser entregues à administração de instituições locais (por exemplo, IPSS ou autarquias) para respectiva gestão segundo as necessidades de cada um, precisamente pela proximidade à população.

Repensando práticas profissionais

(ainda de baixa médica)
Por outro lado, o estar longe faz-me avaliar melhor o meu trabalho, como se estivesse de fora, o que vem bem a calhar nesta altura em que a Magda e eu planeamos a reestruturação da intervenção do GIP. O atendimento individual, à porta aberta e sem marcação, parece não responder às necessidades. É impessoal e os utentes aparecem quando entendem, não sendo fácil acompanhar o seu processo. Pensamos desenvolver sessões semanais de grupo, através das quais conseguiríamos não só estimular e promover a assiduidade e procura activa dos utentes, como preparar os atendimentos, desenvolvendo uma pesquisa personalizada e centrada nos interesses de cada um.
Vantagens: aumentaria, sem dúvida, a frequência dos utentes e a qualidade do atendimento, através da preparação das sessões; permitiria talvez desenvolver uma relação mais próxima com os utentes (pela dinâmica de grupo); incutiria algum sentido de responsabilidade e cumprimento de horários
Desvantagens: não permite incluir todos os utentes, adopta uma atitude reguladora e de controlo (que não enquadro nos meus padrões de trabalho), estipula horários (negando a lógica de intervenção da equipa)
Mais dúvidas surgem acerca da constituição dos grupos...
- Convocar telefonicamente por ordem de inscrição? Excluiria os recentemente inscritos (tendencialmente mais activos), para além de que atrasaria a resposta, como que criando uma lista de espera em mais um campo da vida dos utentes - desnecessário
- Divulgar presencialmente ao longo dos atendimentos? Favoreceria os mais recentes e assíduos, em detrimento dos que procuram apoio há mais tempo (acrescendo ao facto de muitos não conhecerem ainda ao GIP, desconhecendo a nova lógica de acção - agora distinta da equipa social)

Angústia de separação

Estou de baixa há um mês e, embora não signifique estar desligada do estágio, consome-me a angústia de estar longe do gabinete... Falo regularmente com alguns técnicos e vou-me mantendo a par das situações e progressos. Há muito que assumo o estágio como trabalho e simultaneamente um gosto, ao invés de uma obrigação. Faz parte do meu dia-a-dia, as minhas tarefas (mesmo as mais burocráticas e enfadonhas), mas essencialmente o convívio com as pessoas do bairro, os desabafos dos utentes... Aproveito para me questionar se será normal, fazendo o trabalho parte do bem-estar social de cada um, ou se significará que me estou a envolver demasiado... Ter-me-ei aproximado demasiado das pessoas e famílias que me procuram? Ter-me-ei apegado a elas? Influenciará essa relação o meu trabalho e o meu discernimento para intervir? Se assim for, talvez seja útil esta paragem, quem sabe não ajudará a repôr alguma da distância perdida.
Vale a pena pensar sobre isto! ...